✴︎

Tríade de luz

por

Tríade de Luz

A Contribuição Revolucionária de Sara Facio (Argentina), Graciela Iturbide (México) e Claudia Andujar (Brasil) para a Fotografia Latino-Americana

Serie Perón 1972 – 1974  (1973). Sara Facio.

A fotografia latino-americana dos séculos XX e início do XXI foi marcada por vozes que, vindas de diversas geografias e sensibilidades, desafiaram perspectivas hegemônicas, construíram arquivos culturais e defenderam a dignidade de comunidades muitas vezes invisíveis. Nesse contexto, três mulheres se destacam por seu trabalho intencionalmente ético, político e estético: Sara Facio (Argentina, nascida em 1932), Graciela Iturbide (México, nascida em 1942) e Claudia Andujar (Brasil, nascida em 1931). Embora suas carreiras tenham se desenvolvido em contextos diferentes — Sara Facio como editora, curadora e fotógrafa documental; Graciela Iturbide como observadora das culturas urbanas e rurais mexicanas, bem como das identidades femininas; Claudia Andujar, defensora dos povos indígenas e testemunha de suas lutas contra a violência e a discriminação, compartilha uma perspectiva profundamente comprometida com a memória, a identidade e a defesa dos direitos humanos. Este ensaio propõe explorar, dentro de uma destacam por seu trabalho intencionalmente ético, político e estético: Sara Facio (Argentina, nascida em 1932), Graciela Iturbide (México, nascida em 1942) e Claudia Andujar (Brasil, nascida em 1931). Embora suas carreiras tenham se desenvolvido em contextos diferentes — Sara Facio como editora, curadora e fotógrafa documental; Graciela Iturbide como observadora das culturas urbanas e rurais mexicanas, bem como das identidades femininas; Claudia Andujar, defensora dos povos indígenas e testemunha de suas lutas contra a violência e a discriminação, compartilha uma perspectiva profundamente comprometida com a memória, a identidade e a defesa dos direitos humanos. Este ensaio propõe explorar, dentro de uma estrutura analítica, como seus projetos e métodos contribuíram para a diáspora visual da fotografia latino-americana, descentralizaram certas narrativas oficiais e, ao mesmo tempo, geraram debates atuais sobre ética, representação e responsabilidade para com as comunidades retratadas. Partindo dessas questões centrais, o ensaio examina a influência de Facio, Iturbide e Andujar no tecido da fotografia latino-americana e levanta questões pertinentes para a fotografia contemporânea, especialmente em 2026.

Serie Perón 1972 – 1974  (1973). Sara Facio.

Sara Facio: A Fotografia como Arquivo da Memória Argentina

Sara Facio não foi apenas fotógrafa, mas também guardiã de arquivos vivos, mediadora entre imagens e arquivos institucionais e figura fundamental na consolidação da fotografia argentina como linguagem crítica. Seu trabalho, situado entre a prática documental e a curadoria da memória, emergiu durante um período de intensas mudanças políticas e culturais na Argentina. Sara Facio cultivou uma perspectiva que priorizava a sequência do cotidiano, do íntimo e do político, sem perder de vista a responsabilidade ética tanto da fotógrafa quanto do expositor.

Suas contribuições mais significativas incluem a construção de arquivos visuais que registram processos sociais e culturais, não meramente como um registro de eventos, mas como uma forma de preservar a memória coletiva. Ela também fomentou uma prática colaborativa com outros fotógrafos e instituições culturais que reconhece a fotografia como uma linguagem pública e insere imagens em museus, exposições e publicações que dialogam com um público amplo. Uma reflexão sobre a ética da representação: a relação entre o sujeito retratado e o retratista, a autocrítica diante do olhar externo e a responsabilidade de não exotizar as comunidades retratadas.

Desierto de Sonora, México (1979) Graciela Iturbide

Graciela Iturbide: o olhar do ritual

Graciela Iturbide tem sido uma figura fundamental na fotografia mexicana e latino-americana, reconhecida por sua perspectiva ética, sua sensibilidade ao cotidiano e sua capacidade de transformar o marginal em sujeito de reflexão estética e social. Suas contribuições podem ser compreendidas sob diversas perspectivas interconectadas:

  • Ética do olhar. Graciela Iturbide se concentrou em comunidades e cenas frequentemente excluídas do discurso fotográfico dominante: mulheres, povos indígenas, pessoas marginalizadas, rituais populares e espaços urbanos contemporâneos. Sua abordagem evita a exotização e propõe um retrato respeitoso que revela dignidade e complexidade no que pode parecer banal ou marginal.
  • Retrato e a construção da identidade. Seus retratos não buscam o espetáculo, mas sim a intimidade: gestos, olhares e rituais que nos permitem compreender identidades coletivas e pessoais em tensão entre tradição e modernidade. Essa abordagem contribui para uma genealogia da fotografia latino-americana que reivindica a autonomia dos sujeitos representados.
  • Linguagem formal e sensibilidade à luz. Ela trabalha frequentemente em preto e branco, explorando contrastes, texturas e silêncios que intensificam a presença de seus sujeitos. Essa formalidade não é um luxo estético, mas uma ferramenta para sublinhar a continuidade entre o ritual e o cotidiano, entre o sagrado e o profano.
  • Fotografia documental com autonomia artística. Embora suas imagens dialoguem com a tradição documental, Graciela Iturbide mantém seus próprios critérios, que situam a experiência visual dentro de uma estrutura estética. Suas séries demonstram uma flexibilidade entre o documental e o artístico, o que expandiu as possibilidades da fotografia documental latino-americana para se engajar com a arte contemporânea.
  • Memória e arquivo visual do México. Suas obras fazem parte de uma memória visual do México e da América Latina que registra mudanças sociais, migrações, rituais e paisagens urbanas.
  • Gênero, poder e um olhar feminista. Como fotógrafa, Iturbide contribui com uma perspectiva que desafia visões patriarcais e oferece uma interpretação que dá visibilidade às vozes femininas e às práticas culturais. Essa componente feminina e crítica tem sido influente para gerações de fotógrafas que buscam representar corpos e práticas de gênero com profundidade e respeito.
Torito, Coyoacán (1983) Graciela Iturbide

Claudia Andujar: Contribuição para a Fotografia Latino-Americana e Relevância em 2026

Claudia Andujar é uma figura central para a compreensão da fotografia latino-americana a partir de uma perspectiva ética, política e estética. Seu trabalho com a comunidade Yanomami na Amazônia brasileira transcende a mera coleta de imagens, tornando-se uma forma de defesa dos direitos humanos e de construção de arquivos que desafiam as narrativas dominantes sobre “natureza” e “raça” na região.

Nascida em 1931 em Suíça e radicada no Brasil, a carreira de Claudia Andujar se destaca por um compromisso constante com os Yanomami. Sua prática não se limita a um olhar enunciativo através da lente, mas se desdobra como uma relação de trabalho, pesquisa e ativismo. Diferentemente de abordagens que retratam as comunidades indígenas como objetos, Andujar busca forjar uma conexão ética que permita às imagens preencher a lacuna entre a experiência Yanomami e os problemas externos — violência, desapropriação de terras, doenças, extrativismo — que afetam seus territórios. Essa abordagem contribuiu para uma tradição latino-americana que entende a fotografia como um instrumento para defender direitos e criticar estruturas de poder.

As principais contribuições para a fotografia latino-americana incluem:

  1. Ética do Olhar e a Agência dos Sujeitos Retratados
    Claudia Andujar propõe uma ética da representação que questiona a separação entre observador e observado. Seus projetos criam espaços de agência para as comunidades, evitando o olhar voyeurista e promovendo a participação que reconhece a capacidade das comunidades de se narrarem, na medida do possível, por meio da mediação da fotografia.
  2. Construção de Arquivos como Memória Coletiva
    Seu trabalho não se compõe apenas de imagens isoladas, mas também de arquivos, retratos e narrativas que buscam construir uma memória histórica do povo Yanomami e suas lutas por território. Esse esforço contribuiu para a ideia da fotografia como um arquivo vivo que pode sustentar reivindicações políticas e culturais ao longo do tempo.
  3. Interseção de Arte, Documentação e Ativismo
    Claudia Andujar situa a fotografia em um terreno onde arte e ação cívica se cruzam. Suas imagens funcionam como testemunho e argumento político, transcendendo a estrita classificação entre o estético e o documental para se tornarem evidência da violência e, ao mesmo tempo, expressões históricas de dignidade e resistência. 4. Relevância da figura humana em relação à paisagem e à alteridade: Através do seu olhar, a figura humana Yanomami surge em diálogo com o ambiente amazônico, não como um mero complemento da paisagem, mas como um sujeito histórico dotado de agência. Essa abordagem contribui para dissipar interpretações exotizantes e sustentar uma crítica à desumanização que frequentemente acompanha o desenvolvimento e as políticas extrativistas.
  4. Impacto nas políticas museográficas e na curadoria de arquivos indígenas
    O trabalho de Claudia Andujar influenciou a forma como os arquivos indígenas são apresentados em exposições e museus, promovendo abordagens curatoriais que priorizam a voz das comunidades e sua relação com a terra, bem como as questões que essas imagens inspiram a respeito de propriedade, consentimento e direitos autorais.

Dimensões Éticas e Políticas

O trabalho de Claudia Andujar transforma a fotografia, de mera captura estético-figurativa, em uma ética de defesa de um povo contra a violência, o desapossamento e a discriminação. Seu olhar busca não apenas documentar, mas também acompanhar e proteger. Nesse contexto, a ética é entendida como uma práxis que implica responsabilidade para com as pessoas representadas, a comunidade como um todo e o impacto da imagem em suas vidas reais.

As trajetórias de Sara Facio (Argentina, 1932), Graciela Iturbide (México, 1942) e Claudia Andújar (Brasil, 1931) delineiam, com diferentes geografias e abordagens, uma genealogia compartilhada da fotografia latino-americana que vai além da simples captura de imagens. Facio, Iturbide e Andújar construíram, a partir de diversos princípios e práticas. O trabalho de Iturbide, enraizado na poesia do retrato e na documentação institucional, se baseia em seu olhar documental apurado e na natureza ritualística do cotidiano, enquanto Andujar defende as comunidades indígenas e a memória histórica diante da violência e do desaparecimento. Seus trabalhos convergem em um projeto comum: dar voz a identidades, ritmos e fraturas que muitas vezes são silenciados pelas narrativas hegemônicas.

Em um momento histórico em que as imagens circulam rápida e globalmente, sua contribuição é renovada e desafiada: não se trata simplesmente de mostrar o que é visível, mas de defender uma ética da representação, questionar o olhar do outro e exigir responsabilidade pelo poder da imagem de construir, distorcer ou preservar memórias coletivas. A relevância dessas fotógrafas reside em sua capacidade de abrir espaços para reflexão sobre quem olha, o que é registrado e o que desaparece no registro fotográfico.
Seu legado nos convida a ler a fotografia latino-americana como um campo dinâmico que se engaja com novas práticas digitais, jornalismo visual contemporâneo e produções artísticas transnacionais, mantendo, ao mesmo tempo, uma estrutura crítica histórica e contemporânea.

Três questões permanecem em aberto para discussão: Como se transforma o papel da fotografia latino-americana quando as plataformas digitais expandem o público e democratizam a circulação de imagens? Quais responsabilidades éticas e políticas devem guiar aqueles que produzem e disseminam retratos de comunidades, identidades e territórios vulneráveis em 2026? Quais legados de Facio, Iturbide e Andújar permanecem inéditos ou precisam ser reavaliados para a compreensão da memória visual da região?Seu legado nos convida a ler a fotografia latino-americana como um campo dinâmico que se engaja com novas práticas digitais, jornalismo visual contemporâneo e produções artísticas transnacionais, mantendo, ao mesmo tempo, uma estrutura crítica histórica e contemporânea.

Argentina/Venezuela. 1976. Fotojornalista (CRGV 2017). Licenciado em Educação (UNEG 2004). Fotógrafo Documentarista. Professor de Produção Audiovisual (UNEARTE 2025). Criador de conteúdo sobre Fotografia Latino-Americana. Pesquisador Cultural de Ritmos Afrodescendentes. Professor da Escola de Comunicação Social (UBA 2017). Autor de um livro sobre fotografia latino-americana (2025, em andamento).