
Este ensaio resulta de uma pesquisa visual longitudinal de 13 anos, fundamentada na etnografia visual e na observação participante. A prática fotográfica não é uma observação externa, mas uma interlocução dialógica com o povo Krahô, pautada pelo respeito ao tempo ritual e pela agência dos sujeitos.
Antropologicamente, o trabalho dialoga com a antropologia do corpo e da performance. O urucum não é mero adorno, mas uma “segunda pele” que opera como marcador social e proteção ontológica contra entidades da floresta. As imagens evidenciam o corpo como território de inscrição da cultura. A experimentação fotográfica utiliza o realce cromático para evidenciar a materialidade do pigmento, articulando a ecologia local com a cosmologia Jê.
O método envolve a curadoria de imagens que constroem uma narrativa de continuidade histórica. Ao focar em detalhes do manuseio e da pintura, a obra reflete sobre a agência indígena e a persistência de tradições ancestrais frente aos dilemas contemporâneos. A relação com os interlocutores permitiu um registro íntimo do “fazer” (preparo da bola de urucum) e do “ser” (a pele pintada), reafirmando a fotografia como ferramenta de reflexão sobre problemas antropológicos e salvaguarda da memória imaterial.







