A Praça é Nossa é um evento anual que ocorre na cidade de Santos desde 2016, o movimento ocupa praças públicas com artes integradas e resistência popular, fortalecendo a rua como palco, casa e ponto de encontro.
Nesta edição registrada ocupamos a praça pública da Vila Israel, no Morro Santa Maria como um ato de resistência da comunidade, do povo preto, indígena e periférico, contra o apagamento, a exclusão e a negação do direito à cidade. A rua é um espaço de luta, memória e construção coletiva.
Giovanna Barbosa é uma fotógrafa residente da Baixada Santista, que em sua trajetória busca realizar trabalhos de resistência política, mostrando através de suas lentes um mundo pelo qual acredita que devemos lutar e dando protagonismo para movimentos sócio políticos que acontecem em sua cidade e região. Formada em cinema e audiovisual, realiza trabalhos em diversas áreas sendo elas: Direção, Direção de fotografia, Color Grading, Edição de vídeo e Produção.
Essa é uma tentativa de capturar o mistério do trajeto entre o Salar de Uyuni e o deserto de Atacama, travessia realizada em veículo 4×4 durante quatro dias de Oruro (Bolívia) até San Pedro de Atacama (Chile). O acaso me levou a fotografar em uma câmera analógica descartável, já que minha câmera DSLR à época foi furtada em uma parada para refeição. Em lugares em que o tempo é medido em eras e onde a extração de minérios ainda gera profundo impacto, quiçá quis o destino que a paisagem fosse mesmo fotografada em filme com uma lente de plástico.
Nascido e criado no sul do Brasil (1990), formei-me em engenharia civil e, mais tarde, concluí um MBA na Universidade Columbia. Durante muitos anos, tenho praticado fotografia como amador em seu sentido original: alguém que a exerce por profundo afeto e curiosidade.
Desde fevereiro de 2026, tenho me dedicado integralmente à fotografia e às artes visuais.
A celebração das Águas de Oxalá é um dos rituais mais importantes para o Candomblé, sendo uma combinação profunda de tradição religiosa e manifestação cultural. De um simbolismo sincrético e intrincado ao calendário festivo da cidade, o ato de lavar as escadarias da Igreja do Bonfim proclama energias de paz, prosperidade e união, dando boas vindas ao ano que se inicia e aos festejos carnavalescos que estão por vir. Após dois anos de hiato, a manifestação de cultura, fé e ancestralidade retorna às ruas de Olinda (PE), em 2026, reunindo antigas e novas gerações em sua 48ª edição. Entre cânticos, lágrimas e o rufar dos afoxés, público e lideranças religiosas tiveram a oportunidade de render homenagens a Tatá Raminho de Oxóssi, idealizador da celebração falecido em 2024.
Nascido em Recife, Vítor Oliveira é fotógrafo autodidata. Desde o primeiro contato com a câmera, tem se dedicado a exercer um olhar fotográfico a partir de lentes que documentem as relações cotidianas da cidade, sua gente e sua cultura. Assim como a metrópole é formada por pontes, enxerga a fotografia como essa ligação entre o real e o imaterial, o visível e o invisível aos olhos.
Entre o corpo e o cipó é um projeto fotográfico de longo prazo que vem sendo desenvolvido no Centro Eclético Passarinho Branco, um espaço espiritual localizado na Amazônia acreana onde são realizados rituais com a ayahuasca, bebida sagrada de origem indígena preparada a partir do cozimento do cipó (jagube) e da folha (chacrona), em associação com as sete linhas da umbanda, religião afro-brasileira que cultua os orixás e entidades espirituais. O projeto nasce de uma relação de pertencimento: o artista é um dos filhos da própria casa espiritual onde as imagens são produzidas.
A partir de uma perspectiva interna, o projeto investiga os estados de transformação que emergem durante os rituais a partir do consagro da medicina sagrada (ayahuasca), observando gestos, cantos, expressões corporais e as atmosferas que atravessam essas experiências coletivas. As fotografias não buscam documentar os rituais de forma descritiva, mas traduzir visualmente aquilo que se manifesta entre o visível e o invisível: momentos de silêncio, concentração, entrega e conexão espiritual.
Na floresta amazônica, o cipó da ayahuasca é entendido como uma ponte entre mundos: entre o corpo e o espírito, entre memória, território e ancestralidade. Ao acompanhar esses rituais a partir de dentro, o projeto propõe uma reflexão sobre espiritualidade, pertencimento e experiência coletiva no coração da floresta amazônica.
Paulo Henrique Costa é um homem negro, gay, amazônida, fotógrafo autodidata com abordagem autoral e documental e comunicador socioambiental, nascido em Cruzeiro do Sul, no Acre, no coração da floresta amazônica. Venceu o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia – 17ª Edição, da Fundação Nacional de Artes (Funarte) e o Prêmio Fotolivro Artesanal do 4º Festival PhotoThings. Em 2024 e 2025, participou de diversas exposições nacionais e internacionais. Em 2025, lançou os fotolivros Vidas Amazônidas: retratos de um Acre que resiste e Raízes do Juruá – retratos da Amazônia acreana.
Livro-objeto costurado à mão em homenagem à minha avó materna, Helena, que me criou e era costureira.
A primeira parte é composta por fotografias de família, imagens dela sozinha e comigo, impressas sobre tecido. Essas imagens são atravessadas por um bordado em ponto zigue-zague, que percorre as páginas como um traço evocando o movimento instável e pulsante da vida. As folhas são intercaladas com papel vegetal, criando pausas, respiros e camadas de tempo.
No centro do livro, inicia-se a seção “Suturando ausência”, marcada pela data de sua morte: 11 de outubro de 2020.
A partir desse ponto, o trabalho se desloca para imagens produzidas por mim após o enterro. Fotografias da casa vazia, a cadeira favorita, os corredores, a escada, a janela do quarto são atravessadas por gazes e intervenções que remetem a curativos. A casa torna-se a ferida aberta, tentativa de contenção do que sente. Nas imagens busco representar o silêncio instaurado pela ausência.
O bordado, então, se modifica do zigue-zague para uma linha reta, contínua, afirmando a interrupção e a finitude da vida.
O livro se encerra com uma sutura feita com gaze, gesto final que não fecha a ferida, mas a mantém visível como memória, como presença
Artista visual, com especialização em fotografia expandida, de ascendência Guarani Mbya, negra e europeia. Vive na Chapada Diamantina (BA). Transita entre fotografia artística e processos manuais, investigando a imagem além do registro. Combina trabalhos com desenho, arte têxtil, antotipia, cianotipia e fitotipia. Pesquisa natureza e ancestralidade, tensionando memória, presença e permanência. Participou de exposições no Centro Cultural dos Correios (RJ) e no Centro Cultural de Niterói, com Marcas como sinal de existência e Caça à bruxa.
Teve trabalhos publicados em revistas digitais e recebeu um prêmio pelo Fotoclube ABC
Fevereiro de 2026 Nazaré da Mata Pernambuco, Brasil
Entoado pela levada hipnótica do tarol e pelos versos improvisados do mestre sambador, o maracatu pede passagem. Original da zona da mata norte de pernambuco, o maracatu de baque solto, ou maracatu rural, é uma expressão cultural levada adiante pela população rural que mistura elementos místicos, ritualísticos e festivos. Os folguezões carregam simbolismos sincréticos que evocam o cruzamento de culturas europeias, indígenas e afrodiaspóricas.
A celebração do maracatu começa na produção artesanal das roupas, feitas pelas mãos grossas de trabalhadores rurais dos canaviais. São netos, avós, mães e filhos que sustentam ano a ano a tradição. Com movimentos rápidos, o caboclos protegem o perímetro, enquanto baianas rodam suas saias para limpar as energias para a chegada da realeza.
Os caboclos de lança, figura responsável pela proteção física do cortejo, é uma das personagens mais conhecidas. Eles passam por uma preparação espiritual que envolve abstinência sexual, bênção da lança, juramento de fidelidade e consumo de azougue, uma bebida que lhe dá energia durante o cortejo. O cravo que leva em sua boca é sua proteção.
O maracatu rural é presença viva, formado por coletividades de humanos e entidades, os saberes de seu ritual são sagrados e movimentam por dentro os corpos de pessoas simples que sustentam seu compromisso com seus terreiros, ternos e agremiações. Entre estrelas brilhantes, leões coroados, piabas de ouro, está o espírito que sustenta comunidades e as faz preservar seu legado. O maracatu pesa uma tonelada e, mesmo assim, flutua e encanta o imaginário cultural brasileiro.
Fotógrafo sediado em São Paulo, Brasil Ativista socioambiental, poeta e fotógrafo nascido em São Paulo, Brasil, tem seu trabalho inspirado na cultura popular e na natureza, com profundo interesse no sutil e em desimportâncias. Desde 2009, busca fotografias que expressam sentimentos e que carregam simbolismos e forças que emanam da terra.
Este fotolivro é resultado do curso Fotografía Documental, ministrado pela professora e fotógrafa Daniella Fernández Realin na plataforma ContraLuz. Os encontros contaram com a participação de fotógrafxs de vários países da América Latina, com diferentes enfoques, linguagens e abordagens frente à temas relevantes em seus territórios.
Cada estudante apresenta neste fotolivro um resumo ensaio fotográfico que desenvolveu ao longo das seis aulas do curso e que pode ser conferido na íntegra na seção Imágens Circulantes no site do ContraLuz.
O crescimento das pessoas em situação de rua no mundo é alarmante e está presente em praticamente todos os países.
As razões para uma pessoa estar na situação de rua são múltiplas e envolvem desde pobreza extrema, problemas psicológicos, violência e/ou desestruturação familiar, alcoolismo, vício em drogas, entre outros. Contudo, muitos destes problemas aparecem em conjunto e somente estão visíveis quando estas pessoas já se encontram muitos anos nesta situação e, podem ser consequências dessa condição vulnerável.
Um dos indícios desse pensamento é o fato de que o país mais rico do mundo, EUA, são aqueles com mais pessoas em situação de rua no mundo, cerca de 770 mil pessoas em 2024[1], o que pode indicar uma crise global causada pela forma como nossas sociedades se desenvolvem preocupadas com mais acesso a bens e serviços. Uma sociedade que valoriza o desempenho e o sucesso, que não pode ser para todos, causa depressão entre outras doenças e a sensação de cansaço e derrota naqueles que “não são bem sucedidos”[2].
No Brasil, há por volta de 350 mil pessoas em situações de rua atualmente segundo o Cadastro Único de Programas Sociais[3]. Ainda que o número possa ser maior, é uma boa estimativa, já que as grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, concentram mais da metade dessas pessoas.
Fotografar as pessoas em situação de rua é um desafio. Na maioria das vezes invisíveis para a população das cidades, as pessoas em situação de rua precisam ser vistas como são: pessoas, com nome, lugar de onde vieram, desejos, angústias e histórias de vida. Assim que (fotos 3 e 4) vemos um corte de cabelo e barba no banco de praça, no centro de São Vicente, litoral paulista, o cuidado com a aparência entre pessoas em situação de rua, algo pouco comum nesta população.
Já a alegria do Márcio (foto 9) se refrescando na fonte da Praça da Sé, em São Paulo, numa manhã quente de domingo deste último setembro, mostra que nem somente de tristeza se vive na rua. Ele me disse que é baiano de Salvador, e está há 7 anos na capital paulista, e todas as noites tem um local pra dormir na Vila Mariana, mas vem durante o dia para o centro da cidade em busca de conseguir recursos para comer. Eu pedi para fotografá-lo e lhe dei algum dinheiro, e nos abraçamos.
Mas foi com Jonny (fotos 10 e 11) um carioca que registrei em frente aos Arcos da Lapa no Rio de Janeiro que vi ao mesmo tempo a desconfiança comum das pessoas em situação de rua, se transformar em alegria de ter alguém pra escutá-lo, saber um pouco dos caminhos que o levaram para a rua, mas que naquele momento, na pequena conversa eu entendo ele se sentiu parte de algo. Também pedi para fotografá-lo, e quando terminei também ofereci algum dinheiro e nos abraçamos em despedida.
Nem sempre é possível se aproximar, conversar e saber sobre as pessoas em situação de rua, mas vejo como importante registrá-las mesmo que numa situação difícil mãe e filho na rua (foto 1), casal deitado na calçada (foto 6) ou mesmo um senhor dormindo na calçada com seu cachorro (este último que não tirou os olhos de mim). Enfim são imagens que buscam dar visibilidade para um problema presente, mas que já ficamos insensíveis pela correria do dia a dia.
[2] Sociedade do Cansaço é o título e o conceito criado pelo pensador sul-coreano Byung-Chul Han sobre os excessos de estímulos e imposições da sociedade contemporânea sobre todos.
Iniciou na fotografia analógica há 30 anos fotografando movimentos sociais, atividades de cultura popular brasileira, entre outros de forma autônoma. Formado em Ciências Sociais com mestrado em História Social com dissertação sobre a representação da cidade de Santos em cartões postais no início do século XX, atuou como professor e coordenador universitário por 20 anos. Retomando a fotografia com projetos sobre os temas relevantes para cultura e sociedade brasileira.